Mottu emplaca mais que a Shineray e reescreve quem compra moto no Brasil

Em agosto, uma locadora superou uma fabricante no ranking de vendas. O detalhe que ninguém está discutindo é o que isso muda para quem compete no aluguel por aplicativo

MBARental20 de setembro de 2026 3 min de leitura

Em agosto de 2026 a Mottu emplacou 11.983 motos e passou a Shineray, que fechou o mês com 11.392, segundo dados da Fenabrave. A diferença foi de 591 unidades, o suficiente para colocar a Mottu no terceiro lugar do ranking geral de emplacamentos, atrás só de Honda, com 131.427, e Yamaha, com 30.195. Trinta anos vendo planilha de frota me ensinaram a desconfiar de recorde isolado, mas esse número específico merece atenção porque quebra uma lógica que o setor de duas rodas nunca precisou questionar.

A Shineray é fabricante, importa motor, monta no Brasil, vende para revenda que vende para o consumidor final. A Mottu não fabrica nada. Compra moto pronta, majoritariamente a TVS Sport 110i, e coloca na própria frota para alugar via aplicativo a entregadores. Quando uma compradora de frota emplaca mais do que uma montadora em um único mês, o mercado de duas rodas está copiando um movimento que o setor de carros já vive há uma década com locadoras como Localiza e Movida disputando volume direto com as próprias montadoras.

No acumulado do ano a conta ainda favorece a Shineray, com 96.536 unidades contra 78.970 da Mottu, uma diferença de 17.566 motos. Isso importa porque agosto não é virada de mercado, é pico de compra. A Mottu já tinha batido recorde em julho, com 11.397 emplacamentos, depois de um recorde anterior de 11.368 em outubro de 2025. O padrão que aparece aí não é explosão repentina, é curva de crescimento sustentada há dez meses, e curva sustentada em compra de frota costuma significar expansão de operação, não campanha de marketing.

O erro que vejo repetido em conversa de mercado é tratar a Mottu como fenômeno de startup de mobilidade, como se o caso fosse sobre aplicativo e não sobre gestão de frota. Não é. É uma locadora que descobriu, na prática, o que qualquer gestor de frota de carro sabe desde os anos noventa: comprar em volume, negociar preço direto com fábrica ou distribuidor e girar o ativo através de aluguel recorrente gera escala que a venda tradicional em revenda nunca vai alcançar. A diferença é que a Mottu aplicou esse manual em duas rodas, com participação de mercado de 5,84% em agosto contra 5,55% da Shineray, um detalhe pequeno em porcentagem mas enorme em significado estrutural.

Para quem toca locadora de moto ou de carro no Brasil, o alerta prático não é sobre concorrência de app. É sobre quem vai comprar frota daqui para frente. Se uma operação de aluguel consegue negociar volume direto com fabricante de moto a ponto de superar emplacamento de marca tradicional, o próximo movimento natural é pressão sobre preço de aquisição para todo o setor, inclusive para quem aluga carro popular e disputa a mesma faixa de cliente urbano que hoje anda de moto por aplicativo. Quem for medir esse recorde de agosto só pelo ranking da Fenabrave vai perder o sinal que interessa: o comprador que está redesenhando a cadeia de compra de veículo leve no país não vende produto nenhum, aluga.

Leia a notícia original em: https://inforental.com.br/3o-lugar-mottu-passa-shineray-no-numero-de-vendas-em-agosto/

MBA em Gestão Estratégica do Negócio Rental

A primeira formação executiva do Brasil dedicada a empresas de ativos locáveis.

Conheça o MBA